ÚLTIMO ENCONTRO 30/06/22 - Ciranda de Leitura Online - Grande Sertão: Veredas

Atualizado: 30 de jun.




Realização: A Casa Frida & Confraria das Lagartixas


Performance do ator e poeta, Odilon Esteves, além de participação especial do Museu Casa Guimarães Rosa, representado por seu diretor Ronaldo Oliveira. Faremos um tour virtual pela casa em que Guimarães Rosa nasceu em Cordisburgo.


Visite o Museu Casa Guimarães Rosa - CLIQUE AQUI




“O sertão me produz, depois me engoliu, depois me cuspiu do quente da boca… O senhor crê minha narração?”

Este projeto foi concebido em parceria pela Confraria das Lagartixas e o Grupo A Casa Frida. Acompanhe nossa playlist no YouTube com os encontros anteriores.




Recomendamos que a leitura NÃO seja feita pelo PDF que enviamos. Não há nada melhor que ter um livro físico nas mãos e, seguindo os caminhos de Guimarães, ter um bloco de anotações com um lápis para deixar guardado partes importantes dessa travessia.


Recomendamos a edição de bolso da Companhia das Letras (pelo valor acessível, ou adquirida através da cesta temática criada especialmente para este evento - maiores informações no site padocafilosofica.com.br/cestasartesanais ), vamos nos enveredar ...


 

Parágrafo de início:

"Amanheceu com chuva. Mundo branco, rajava. Deu raio, deu trovão, escorremos água; e tudo que se pensou ou se fez foi em montes de lama. Diz o senhor, sim: assim é dia-de-véspera? Receio meu era só pela fuga de cavalos. Escapulissem ― eles sabem como o Gerais é espaçoso; como no Gerais tem disso: que, passando noite tão serena, desse de manhã o desabe de repente daquela chuva..."


Até o final do livro.




Livro de Bolso Grande Sertão: Veredas - da página 495 até o final do livro.



Edição Normal Companhia das Letras Grande Sertão: Veredas: - da página 402 até o final do livro.


As demais edições deverão ser lidas até a diagramação final do PDF do material de apoio.


Baixe o PDF clicando no ícone abaixo.

Grande Sertão Veredas - ROSA, Guimarães - 10 de 10
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ÚLTIMO ENCONTRO 10 de 10: 30/06/22 - 19h30 às 21h00

Na sua casa através do aplicativo Zoom (Play Store) (Apple Store)


As inscrições devem ser feitas no link abaixo:




MATERIAL DE APOIO - ÚLTIMO ENCONTRO (30/06)


“O senhor escute meu coração, pegue no meu pulso. O senhor avista meus cabelos brancos… Viver - não é? - é muito perigoso. Porque ainda não se sabe. Porque aprender-a-viver é que é o viver, mesmo.”

Eis o final de nossa travessia. Seria de fato o final ou o convite a uma nova releitura?

"Rompemos para o Paredão", em direção ao que todos já sabem mas ninguém quer de fato saber, o final trágico da epopéia roseana.

Há algo de enigmático na travessia do sertão que se confirma ao concluir a história, Riobaldo não consegue apreender na totalidade quem se tornou depois da perda de seu grande amor. Chegamos finalmente ao fim que se entrelaça ao início do livro, como o desenho do símbolo do infinito, algo que não tem começo e nem fim.


Contrastando com tantas mudanças contemporâneas, o sertão é lugar de costumes que atravessam os tempos. Isso que se caracteriza por uma distância no tempo e no espaço poderia ser também uma analogia do psiquismo, do inconsciente? De um interior que se localiza ou que existe dentro de nós? O que não se tem controle e que nos governa. "- Nonada. O sertão está em toda parte."

Com esse sentimento de estranheza como o vento que muda de direção no batalha final entre Hermógenes e Diadorim que o leitor finaliza a leitura.


“Eu atravesso as coisas - e no meio da travessia não vejo! só estava era entretido na ideia dos lugares de saída e de chegada. Assaz o senhor sabe: a gente quer passar um rio a nado, e passa; mas vai dar na outra banda é num ponto muito mais embaixo, bem diverso do que em primeiro se pensou: viver não é muito perigoso? ” (ROSA, p. 32)


Para que lugar a leitura dessa obra nos transporta? Qual foi o sentimento despertado pelo grupo da ciranda ao se deparar com a tragédia final?

Agora fica em evidência que o início é o fim do livro, daí a dificuldade em estruturar uma sequência lógica. Tal fato é revelado apenas nesse momento, ao fim da leitura, o que talvez desperte o desejo circular de releitura, em busca de encadeamentos futuros.

O diabo, para Riobaldo, era o “homem aos avessos”, e ele se questiona se o demo era ele mesmo. Talvez haja uma relação com o enigma da esfinge, com a pergunta sobre o que é o humano. Diante da constatação do desamparo e da fragilidade do homem, nomeia-se um sentido do viver.

Alguns estudos apontam Diadorim como sendo o duplo de Hermógenes, “masculino e feminino; anjo e diabo, referenciado diá com que se inicia Diadorim, e oposto a Deo, início do seu nome próprio, Deodorina, formando o par antitético Diabo versus Deus” (MORAIS, p.123). O pacto com o diabo que Riobaldo realiza é movido por seu desejo por Diadorim, a encruzilhada do desejo. A morte de Diadorim se efetiva na “encruzilhada com o diabo no meio do re-demo-inho”; no duelo final Diadorim e Hermógenes morrem juntos, personagens que se complementam nas representações. É apenas após a morte que Diadorim se revelará mulher, revelando mais um dos diversos enigmas da obra.

“Grande Sertão” é, na essência, uma história de amor. Riobaldo perde Diadorim e narra sua triste travessia pelo sertão. Ao mesmo tempo em que o amor é o que nos salva da loucura e do adoecimento, também é causa de sofrimento. Nunca estamos tão mal protegidos contra o sofrimento como quando amamos, nunca estamos tão irremediavelmente infelizes como quando perdemos a pessoa amada ou o seu amor. Como disse Freud, em última análise precisamos amar para não adoecer (1914). Rosa aproxima o ato de amar do estado de saúde, o que viabiliza a convivência com o outro, as frustrações e perdas. “Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura” (ROSA, p.23).

Após o falecimento de Diadorim e um longo período de restabelecimento, Riobaldo se casa com Otacília, deixa a jagunçagem e se torna fazendeiro. “De mim, pessoa, vivo para minha mulher, que tudo modo-melhor merece, e para a devoção. Bem-querer de minha mulher foi que me auxiliou, rezas dela, graças. Amor vem de amor. Digo. Em Diadorim, penso também – mas Diadorim é minha neblina...” ROSA (p. 22)

Ao lado de Otacília, ele adentra na velhice, recorda seu passado, e Diadorim se faz presente na ausência. O luto de Riobaldo parece impulsionado pela pulsão de vida, em que, após o trabalho do luto, a libido realiza novas conexões. Apesar das pulsões de vida e morte coexistirem, há no processo uma prevalência de ligações das pulsões. Sendo assim, o que possibilita a conclusão do trabalho de luto é a capacidade para o amor.

A literatura e, especificamente, a obra estética de Guimarães Rosa nos faz adentrar no efeito transformador da arte. Nesse sentido, podemos pensar que a literatura e a teoria psicanalítica caminham juntas, já que a teoria psicanalítica se atualiza na escuta afinada das narrativas dos pacientes, que nos trazem suas histórias e sonhos, assim como a obra literária atrai leitores pela narrativa das experiências humanas, os sofrimentos, as alegrias, as descobertas relatadas nos romances, nos devaneios de cada escritor que remete à condição humana, “aos crespos do homem”, citando Guimarães Rosa.

“Grande Sertão: Veredas” possibilita inúmeros estudos, análises e interpretações, sob os mais diversos ângulos. Assim, não foi pretensão esgotar as possibilidades, mas tão somente contribuir com algumas reflexões acerca da obra. A escrita circular, em que o fim é o começo do livro, se assemelha ao processo da travessia do luto de Riobaldo, que vislumbra o movimento do sujeito no processo de elaboração de perdas e abre o campo de pesquisa da metapsicologia do luto para a renovação da capacidade de amar, fazer novas conexões e travessias.

“O diabo não há! É o que eu digo, se for… Existe é homem humano. Travessia.” (ROSA, p.435).

Assim finalizamos a leitura desta grande obra, ou despertamos o desejo para novas releituras dos que estão lendo pela primeira vez. Foi um privilégio a experiência da leitura coletiva de uma obra tão impactante. Um agradecimento especial aos integrantes da ciranda de leitura que desbravaram com coragem, abrindo pastos fechados, seguindo juntos até o final dessa travessia.


Por Carla Belintani

Psicanalista e fundadora do projeto A Casa Frida



 

Diadorim homem até o fim

(Releituras transviadas do Grande Sertão)


Amara Moira



Tendo chegado às prateleiras das livrarias no dia 16 de julho de 1956, o romance Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, não precisou de um mês para ver surgirem as primeiras resenhas que, já de cara, revelavam o desfecho tão pacientemente urdido por seu narrador/protagonista:


"Grande Sertão: Veredas" é um romance escrito em primeira pessoa: Riobaldo, um velho jagunço, vai narrando as peripécias de sua vida acidentada. Mas essa narrativa se faz em vários planos, num processo semelhante ao da "decoupage" de Sartre. A intriga, que se complica extraordinariamente, possui três eixos: a grande afeição de Riobaldo por Diadorim, afeição exagerada, assumindo um aspecto corydonesco — embora o herói de Guimarães Rosa não pareça ter uma ideia nítida dos verdadeiros motivos que o aproximam do companheiro — as lutas do jagunço, revestindo-se, por vezes, de um caráter épico — e a espécie de danação de Hermógenes, um dos chefes do bando de Joca Ramiro, que passa por ter um pacto com o diabo. O interesse psicológico do romance vem dos sentimentos ambíguos a se agitarem no fundo dessas almas primitivas. Diadorim, cuja vida de jagunço se tece no entanto, de uma haura angelical, entra finalmente em luta com o endemoninhado Hermógenes, daí resultando a morte de ambos. Então, desvenda-se o segredo: Diadorim era mulher e não homem, explicando-se assim, fora da perspectiva gidiana, todo o seu fascínio sobre Riobaldo. (s/a, 1956, p.9)


Este excerto responde por metade da resenha que o Correio da Manhã, importante jornal carioca da época, publicou sobre o romance de Rosa no dia 15 de agosto de 1956. A citação longa se justifica por apresentar o esqueleto da recepção do Grande Sertão no tocante ao aspecto que aqui mais nos interessa, o amoroso. Para quem conheça a trama, salta aos olhos a pressa com que se libera uma informação só disponibilizada nas 15 páginas finais das quase 600 da edição original.

O "aspecto corydonesco" com que a resenha caracteriza a "grande afeição de Riobaldo por Diadorim" é uma referência a Corydon, tratado em defesa da homossexualidade publicado pelo escritor francês André Gide em 1924. No entanto, o próprio texto se antecipa em dizer que Riobaldo parece não ter "uma ideia nítida dos verdadeiros motivos que o aproximam do companheiro", ponto que será explicado logo abaixo, quando nos é dito que, após a morte de Diadorim, descobre-se que "Diadorim era mulher e não homem, explicando-se assim, fora da perspectiva gidiana, todo o seu fascínio sobre Riobaldo".

Para a resenha, portanto, o fascínio que Diadorim exerceu sobre Riobaldo só poderia ser explicado pelo fato de aquele "ser mulher" e este, inconscientemente, tê-lo percebido desde o começo. Hipótese similar seria publicada no mesmo jornal, três meses depois, pelo poeta Octavio Mello Alvarenga, quem afirmaria: "No final das aventuras de Riobaldo como jagunço, que coincide com a morte de Diadorim, Guimarães Rosa conclui que Diadorim é mulher. O fecho fica perfeito. O amor de Riobaldo não tinha sujice. Era o que se dedica a uma mulher" (Alvarenga, 1956, p.9).

E não param por aí as precipitadas "revelações" do desfecho de Grande Sertão, feitas pouco tempo depois de seu lançamento, como, dentre vários exemplos possíveis, quando Affonso Ávila escreve que "se conhecesse os hábitos e crenças dos sertanejos, ninguém taxaria de inverossímil a moça Diadorim, disfarçada toda uma vida em homem" (Ávila, 1957, p.4), ou quando Franklin de Oliveira define Diadorim como "mulher que vai à guerra disfarçada em guerreiro" (Oliveira, 1957, p.10) ou, ainda, quando Múcio Leão ocupa cerca de um terço da sua resenha do romance com a transcrição da longa passagem em que se revela que "Diadorim era o corpo de uma mulher, moça perfeita" (Leão, 1957, p.5), ou, por fim, quando Cavalcanti Proença afirma que, em Diadorim, vemos a retomada da "tradicional história do velho fidalgo que não tendo filho homem que possa continuar a sua tradição guerreira, arma em cavalheiro a filha mais velha, que se compromete a fazer brilhar o nome da família" (Prada, 1958, p.99).

O propósito de semelhante spoiler é nítido: preparar o leitor de Rosa para uma experiência incômoda, avisando-lhe que a narrativa profundamente homoerótica que ele terá ao longo das próximas centenas de páginas se revelará, no final das contas, um amor heterossexual. O curioso, no caso, é que esse movimento da primeira recepção crítica da obra contraria o desejo expresso do próprio narrador/protagonista, que retardou ao máximo a revelação desse segredo para que o seu interlocutor (e, por tabela, quem o lesse) ficasse "sabendo somento no átimo em que eu [Riobaldo] também só soube" (Rosa, 2019, p.428).

Como entender o gesto de Riobaldo? Afinal, se, desde o início do relato ele já sabia que "Diadorim era o corpo de uma mulher, moça perfeita" (Rosa, 2019, p.428), que motivos o teriam levado a reter por tanto tempo essa informação? Sobretudo ao considerarmos que o sofrimento por ver-se apaixonado por outro homem acompanhará toda a sua narrativa. A questão foi ignorada pelo grosso da crítica rosiana, ansioso por alardear a heterossexualidade desse amor, como, por exemplo, no ensaio "Grande-Sertão e Dr. Faustus", datado de 1960, de Roberto Schwarz, onde se defende que:


Este [Riobaldo], não decifrando o travesti, não vislumbra Deodorina em Diadorim, a moça oculta no jagunço delicado; torna-se, então, vítima da aparência. Diadorim, ainda que à própria revelia, não é só cordura, é também máscara e engano, rosto do diabo. [...] Deodorina (esse é o nome verdadeiro da moça), em roupa de homem, é a neblina de Riobaldo, pejado por amar um jagunço; é a presença do insólito, sem a qual a simples ideia do pacto escuro seria inconcebível. [...] Resulta da luta a morte de Diadorim, e a revelação, pelo corpo nu, de sua feminidade; prova-se desnecessária toda a aventura, sem que se anulem os efeitos: Riobaldo agora é o chefe respeitado que limpou o sertão. (Schwarz, 1981, p.48-49)


Para o renomado crítico, Riobaldo foi "vítima da aparência", não sabendo ver o que Diadorim de fato era, uma mulher "em roupa de homem". Isso é reforçado pelo "verdadeiro" com que Schwarz caracteriza o nome "Deodorina", aquele que diria quem a personagem é. Tivesse o protagonista intuído ou percebido antes essa "verdade", o que mudaria? "Toda a aventura" seria "desnecessária", afirma Schwarz, com isso indicando que o amor dos dois, enfim, teria sido possível.

E eis um dos pontos mais curiosos. O que quereria dizer semelhante hipótese? Que, caso Riobaldo tivesse desmascarado a "farsa", Diadorim teria se assumido mulher e aceitado ser sua esposa, ocupando o lugar que acabou nas mãos de Otacília? Essa fantasia é muito alimentada por uma passagem da reta final da obra, quando Diadorim diz ao amigo: "Riobaldo, o cumprir de nossa vingança vem perto... Daí, quando tudo estiver repago e refeito, um segredo, uma coisa, vou contar a você..." (Rosa, 2019, p.366).

Que segredo seria esse? Diadorim revelaria, então, ser mulher ou, nada disso, diria tão-somente que ele nasceu, sim, com vagina, mas gostaria de continuar sendo tratado como um igual do bando? Não sabemos. O que sabemos, no entanto, é que, mesmo após Diadorim dedicar sua vida à mais brutal virilidade, a imaginação hegemônica ainda assim é capaz de vislumbrá-lo abandonando, num piscar de olhos, sua vida de jagunço para poder se tornar mulher de Riobaldo: "A certeza do ódio é a causa da morte de Diadorim: obriga-o a desperdiçar a vida e o amor de Riobaldo, proibindo-o de assumir seu ser de mulher, e leva-o diretamente para a destruição de si mesmo" (Galvão, 1972, p.131).

A passagem é de uma das mais reputadas estudiosas de Rosa, Walnice Nogueira Galvão, mas, nesse ponto específico, é como se não estivéssemos lendo a mesma obra. Diadorim aqui é, novamente, encarado como alguém se passando pelo que não é, máscara, engano, e o que é pior: alguém que aceitou sacrificar o amor e a própria vida para manter de pé a mentira que armou. Tudo isso ignora o fato de que, desde a adolescência de Diadorim (o momento mais recuado de sua história, na trama), Riobaldo já o havia conhecido como menino e revela, além disso, a incapacidade de imaginarem que Diadorim, independente dos motivos que o levaram a isso, se visse no papel que assumiu, se identificasse com a maneira como existiu ao longo de todo o romance. Homem.

Importante relembrar, nesse sentido, que as duas únicas personagens que, no decorrer da obra, não viram em Diadorim "jeito de macheza" e ousaram fazer zombaria a respeito quase pagaram com a vida pela ousadia: "[Diadorim] Deu com o Fancho-Bode todo no chão, e já se curvou em cima: e o punhal parou ponta diantinho da goela do dito, bem encostado no gogó [...]" (Rosa, 2019, p.119). Fulorêncio, a outra personagem, fica sem reação e, quando Diadorim manda Fancho-Bode se levantar para duelarem à faca, este dá a entender que tudo não passou de brincadeira, dizendo: "Oxente! Homem tu é, mano velho, patrício!" (Rosa, 2019, p.120).

Para Galvão, o embate com os dois personagens serve para atestar a coragem de Diadorim, mas "prova ao mesmo tempo que era ao menos pressentível para quem não o conhecia a sua verdadeira natureza sexual" (Galvão, 1972, p.102). Mais uma vez a noção de verdade sendo mobilizada, verdade que se ocultaria por sob as aparências e que, percebam, só pode ser enunciada porque estamos longe do punhal de Diadorim. Tendo-o diante de si, difícil acreditar que alguém se sentiria tão confortável para tecer considerações do gênero.

Longe dele, no entanto, é possível até transformar a leitura do romance num minucioso caça-pistas da revelação, como o encetado pelo pioneiro estudo de Cavalcanti Proença, originalmente publicado em 1958, "Trilhas do Grande Sertão". O autor, ali, propôs-se a colher as mais características "deixas para que se descubra o sexo de Diadorim" (Proença, 1976, p.176) e, ainda que, "de fato, após a revelação ["do verdadeiro sexo de Diadorim"], elas [as deixas colhidas pelo estudo] pareçam quase evidentes" (Pécora, 1985, p.69), é cada vez mais forçoso reconhecer que "el ensayo de Manuel Cavalcanti Proença depende casi totalmente de una serie de estereotipos culturales para explorar los atributos masculinos y femeninos de Diadorim" (Balderston, 2004, p.89).

Dois exemplos absurdos dessa estereotipia, exemplos que, segundo o autor, revelariam "reações muito femininas" do companheiro de Riobaldo (Proença, 1976, p.177): "Quando o pai morre, [Diadorim] desmaia, soluça, tem um quase uivo de dor, foge para chorar escondido, deitado na relva" e, no parágrafo seguinte, "Isentando-se das contingências mais bárbaras do cangaço, Diadorim não participa da macabra refeição de carne humana" (referindo-se, com isso, ao fato de ele não ter se juntado aos comparsas nem nas cenas de estupro nem nos encontros com meretrizes). Mas, à mesma página, ainda se citam no estudo o fato de que, "no meio dos jagunços desajeitados, ele é o que melhor dança" e de que ele só se permite cantarolar quando sozinho ("para que a voz não lhe traísse o segredo", supostamente), sem contar a passagem em que, para Proença, Diadorim revela possuir "o amor tão feminino pelo luxo": "... e sem querer, parou aberto com os lábios da boca, enquanto que os olhos e olhos remiravam a pedra de safira no covo de suas mãos".

Para embasar a estereotipia de que se vale, Proença argumenta que "a paixão do jagunço Riobaldo pelo moço Diadorim não se parece, no seu primitivismo, com o refinamento de romancistas europeus lavrando no lusco-fusco do homossexualismo" (Proença, 1976, p.1976). O que se veria ali, então, para o estudioso, seria um "processo muito ao gosto do povo — o de dar aparência de imoralidade a fatos comuns" (Proença, 1976, p.1976). Hipóteses que tais, no entanto, falam mais do conservadorismo da recepção inicial do Grande Sertão do que do romance em si e quanto mais o tempo passa, mais fica nítido o quanto a obra "socava constantemente ideas preestablecidas de sexo, género y orientación sexual" (Balderston, 2004, p.90). Muito significativo, nesse sentido, é o depoimento que Décio Pignatari deu à série Os Nomes do Rosa (dir. Pedro Bial, 1997), reunido posteriormente em livro:


Se quisessem falar da alienação do Rosa — eu não acho que é alienação —, é que em plena era do Sputnik, em plena era da energia atômica, ele vem contar a história de uma paixão gay lá no sertão de Minas, na confluência do Nordeste, nos fins do século passado. [...]. Isso é espantoso. E eu ria muito quando vinham estudar essa questão do Rosa. Estudos, por exemplo, "O amor em Guimarães Rosa". Então se falava em tudo menos na homossexualidade. (Callado et al., 2011, p.35)


De qualquer forma, uma vez terminada a leitura/escuta da história, a impressão é Riobaldo ter evidentemente espalhado antecipações desse desfecho pelo caminho. No entanto, convém perguntarmo-nos se esses pontos seriam, de fato, antecipações ou se não poderíamos vê-los seja como indicativos de uma visão engessada de gênero de Riobaldo, seja como provocações suas, e do próprio Rosa, para brincar com o conservadorismo de quem os escuta/lê. Em que detalhes buscaremos indícios de que Diadorim era "mulher", ou melhor, de que ele nasceu com vagina? O que revelamos das nossas próprias compreensões de gênero ao buscarmos/encontrarmos tais indícios?

Daí a proposta de um exercício simples de imaginação: se não soubéssemos o final, ou conseguíssemos voluntariamente esquecê-lo, e atentássemos para as insistentes menções ao desejo sexual que Riobaldo sente por Diadorim, o que estaríamos esperando que aconteceria a qualquer momento?


E em mim a vontade de chegar todo próximo, quase uma ânsia de sentir o cheiro do corpo dele, dos braços, que às vezes adivinhei insensatamente — tentação dessa eu espairecia, aí rijo comigo renegava. (Rosa, 2019, p.110)


Teve um instante, abambeei bem. Foi mesmo aquela vez? Foi outra? Alguma, foi; me alembro. Meu corpo gostava de Diadorim. Estendi a mão, para suas formas; mas, quando ia, bobamente, ele me olhou — os olhos dele não me deixaram. (Rosa, 2019, p.135)


Diadorim — mesmo o bravo guerreiro — ele era para tanto carinho: minha vontade era beijar aquele perfume no pescoço: a lá, aonde se acabava e remansava a dureza do queixo, do rosto... [...] E eu tinha de gostar tramadamente assim, de Diadorim, e calar qualquer palavra. Ele fosse uma mulher, e à-alta e desprezadora que sendo, eu me encorajava: no dizer paixão e no fazer — pegava, diminuía: ela no meio de meus braços! Mas, dois guerreiros, como é, como iam poder se gostar, mesmo em singela conversação — por detrás de tantos brios e armas? (Rosa, 2019, p.412-413)


Vontade de colar no corpo de Diadorim, perda momentânea do autocontrole e Riobaldo, por fim, pensando que, se o amigo fosse mulher e resistisse ao assédio, ele não pestanejaria em usar a força. O amor sentido por Riobaldo implica contato físico, carne, e, tendo passagens como essas em mente (dentre tantas outras possíveis), não seria absurdo imaginar que a narrativa nos estaria preparando, não para a revelação final, mas para o encontro amoroso dos dois. O que talvez tenha impedido Riobaldo de realizar esse avanço é a lembrança do momento em que conheceu o Menino (que viria a ser Reinaldo e, depois, Diadorim), os dois adolescentes, e o viu cravar uma faca na coxa do rapaz que sugeriu um troca-troca entre eles três (Rosa, 2019, p.83).

"Ele fosse uma mulher", percebam. Como não era, para Riobaldo, o recurso à força não faria sentido: "Mas, dois guerreiros, como é, como iam poder se gostar, [...] por detrás de tantos brios e armas?". E, com isso, é importante perceber que Diadorim não reivindicava uma identidade de homem (como se pode pensar em relação aos homens trans de hoje em dia, permanentemente lutando por reconhecimento), mas, sim, que ele era homem para toda aquela comunidade. O que é um homem senão alguém que é reconhecido como tal pela sociedade em que vive? Não temos acesso à subjetividade de Diadorim e, nisso, tratar como falsa, como máscara a sua identidade masculina é puro reflexo de uma compreensão genitalizante de gênero.

Por isso, Galvão tem razão ao afirmar que "ao longo de toda a sua atormentada relação com Diadorim, Riobaldo enfrenta esta contradição: ele, um homem de mulheres, ama um homem, e sabe que ama um homem" (Galvão, 1972, p.101). Essa dolorida certeza com que o narrador-protagonista conviveu por anos, terá sido ela um dos motivos a lhe fazer contar a história da forma como contou? Teria ele, após a morte do amigo, conseguido efetivamente se convencer de que continuava um "homem por mulheres" apenas, sem "inclinação pra aos vícios desencontrados" (Rosa, 2019, p.110)?

Emblemático desse desconcerto é o momento em que, após a revelação final e as buscas infrutíferas que fez para tentar entender as motivações de Diadorim, Riobaldo se refere ao amigo, num mesmo parágrafo, pelos dois gêneros:


E, Diadorim, às vezes conheci que a saudade dele não me desse repouso, nem o nele imaginar. Porque eu, em tanto viver de tempo, tinha negado em mim aquele amor, e a amizade de agora estava amarga falseada; e o amor, e a pessoa dela, mesma, ela tinha me negado. Para quê eu ia conseguir viver? (Rosa, 2019, p.433)


Riobaldo conheceu Diadorim homem e, tendo este morrido, passa a acreditar que o amigo lhe negou tanto o amor, quanto a verdade sobre quem era. No entanto, ainda assim ele optou por reter essa informação até quase o final da narrativa, convidando quem o leia/ouça a experienciar a verdade do que ele viveu, verdade que inclui os sofrimentos mas, também, os prazeres de ver-se apaixonado por outro homem.

E se, por um lado, a crítica hegemônica pareceu encantar-se com o desfecho proposto por Rosa, dado que isso lhe permitiria reinterpretar o romance a partir de um prisma heterossexualizante, por outro, vozes isoladas foram, desde que a obra veio a lume, manifestando um certo incômodo com a revelação final, por entendê-la como concessão aos preconceitos da época.

Um primeiro indício desses incômodos pode ser visto na carta que Manuel Bandeira publicou com suas impressões sobre o livro, onde se lê: "E o caso de Diadorim, seria mesmo possível? Você é dos gerais, você é que sabe. Mas eu tive a minha decepção quando se descobriu que Diadorim era mulher. Honni soit qui mal y pense, eu preferia Diadorim homem até o fim" (Bandeira, 1957, p.5). Conviver com Mário de Andrade talvez tenha tido um papel fundamental na reação de Bandeira, sintomática de que já existiam, à época, sensibilidades capazes tanto de fruir as dissidências sexuais presentes no Grande Sertão, quanto de manifestar seu desapontamento por a obra não ter sido tão dissidente quanto dava a entender que seria.

Paulo Hecker Filho seria ainda mais incisivo que Bandeira, taxando a "moça em travesti masculino" como uma "afronta à verossimilhança" e afirmando que a solução encontrada por Rosa "parece apenas traduzir o sonho dum homossexualismo sem pecado, 'honrado'" (Hecker, 1973, p.1). Dois meses depois, aprofundaria ainda mais a crítica, sugerindo que, com essa "mágica inconveniente", Rosa optou, "num enraizado sentimento de culpa, por ser social e religiosamente respeitoso em vez de artista" e que o melhor a fazer talvez fosse não "levarmos o truque inocentador a sério", para podermos "continuar vendo no que importa do livro uma história homossexual, e das mais intensas e delicadas já escritas" (Hecker, 1973, p.5).

Trinta anos mais tarde será a vez de Daniel Balderston enveredar por esta seara. Seu texto toma como ponto de partida a frustração de seus alunos com o desfecho do Grande Sertão, sintetizada nas seguintes perguntas:


¿no es cobarde por parte del autor crear una historia de amor homosexual sólo para revelar a última hora que siempre fue heterosexual? ¿Acaso Riobaldo sólo puede narrar la historia porque Diadorim ya está muerta y él sabe que era mujer? (Balderston, 2004, p.85)


Balderston concorda com tais críticas e aponta para a lacuna, na vasta bibliografia sobre o romance, de reflexões "acerca de esta cobardía íntima de su narrador (y tal vez de su autor), a pesar de que existen muchos estudios sobre su ambigüedad narrativa" (Balderston, 2004, p.85). Seu texto é luminoso ao explorar as contradições seja de Riobaldo, seja dos estudiosos, mas, assim como Bandeira, Hecker e toda a crítica conservadora que abordei aqui, parece travar justo diante de Diadorim, a quem define da seguinte forma: "no es 'hermofrodita' ni 'andrógino' como han querido tantos críticos, sino una mujer marcada por una fuerte tendencia a la masculinidad" (Balderston, 2004, p.87).

Mais de sessenta anos passados da publicação do Grande Sertão e o que vemos é a visibilidade cada vez maior de pessoas trans, sobretudo a de homens trans e pessoas transmasculinas, afetando a própria maneira como o romance passa a ser lido[1]. E, se vinte anos atrás, o que chamava a atenção de alunos era a "covardia" desse narrador, nos últimos anos o que começa a chamar atenção é o fato de Rosa, com sua radicalidade visionária, ter concebido uma narrativa homoerótica envolvendo um personagem homem que nasceu com vagina (vide Bastos [2016] e Castro & Bessa [2020]). Se parecia uma concessão às normatividades, o que se vê agora é uma obra ainda mais transviada. A ponto de, hoje, podermos devolver a pergunta a Bandeira: quando é que Diadorim deixou de ser homem?


REFERÊNCIAS



ALVARENGA, Octavio Mello. "Grande Sertão: Veredas". Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 10/11/1956, p.9.


ÁVILA, Affonso. A autenticidade em Guimarães Rosa. Suplemento Literário, São Paulo, 12/01/1957, p.4.


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[1] Interessante mencionar que, após a publicação da primeira autobiografia escrita por um homem trans no Brasil (A Queda para o Alto [1982], de Anderson Herzer), o jornalista João Cândido Galvão fez uma resenha da obra aproximando as figuras de Herzer e Diadorim, inclusive pelo fim trágico de ambos: Em um país onde um dos maiores heróis de ficção é Diadorim, o cangaceiro-mulher de Grande Sertão: Veredas, uma surpresa para os leitores de Guimarães Rosa: a realidade é mais violenta. A sociedade mata os não enquadrados que ousam tentar viver suas vidas. No dia 9 de agosto de 1982, Diadorim morreu mais uma vez, lutando pelo seu amor. (Galvão, 1982, p.145)


 

A Batalha Final:


Riobaldo na Encruzilhada dos Fantasmas


 

Playlist interativa para acompanhar as leituras:

Os participantes da playlist podem adicionar músicas relacionadas.




Calendário 2022 - Guimarães Rosa "Grande Sertão: Veredas"


 

ÚLTIMO ENCONTRO 10 de 10: 30/06/22 - 19h30 às 21h00

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