ÚLTIMO ENCONTRO 30/06/22 - Ciranda de Leitura Online - Grande Sertão: Veredas




Realização: A Casa Frida & Confraria das Lagartixas


Performance do ator e poeta, Odilon Esteves, além de participação especial do Museu Casa Guimarães Rosa, representado por seu diretor Ronaldo Oliveira. Faremos um tour virtual pela casa em que Guimarães Rosa nasceu em Cordisburgo.


Visite o Museu Casa Guimarães Rosa - CLIQUE AQUI




“O sertão me produz, depois me engoliu, depois me cuspiu do quente da boca… O senhor crê minha narração?”

Este projeto foi concebido em parceria pela Confraria das Lagartixas e o Grupo A Casa Frida. Acompanhe nossa playlist no YouTube com os encontros anteriores.




Recomendamos que a leitura NÃO seja feita pelo PDF que enviamos. Não há nada melhor que ter um livro físico nas mãos e, seguindo os caminhos de Guimarães, ter um bloco de anotações com um lápis para deixar guardado partes importantes dessa travessia.


Recomendamos a edição de bolso da Companhia das Letras (pelo valor acessível, ou adquirida através da cesta temática criada especialmente para este evento - maiores informações no site padocafilosofica.com.br/cestasartesanais ), vamos nos enveredar ...


 

Parágrafo de início:

"Amanheceu com chuva. Mundo branco, rajava. Deu raio, deu trovão, escorremos água; e tudo que se pensou ou se fez foi em montes de lama. Diz o senhor, sim: assim é dia-de-véspera? Receio meu era só pela fuga de cavalos. Escapulissem ― eles sabem como o Gerais é espaçoso; como no Gerais tem disso: que, passando noite tão serena, desse de manhã o desabe de repente daquela chuva..."


Até o final do livro.




Livro de Bolso Grande Sertão: Veredas - da página 495 até o final do livro.



Edição Normal Companhia das Letras Grande Sertão: Veredas: - da página 402 até o final do livro.


As demais edições deverão ser lidas até a diagramação final do PDF do material de apoio.


Baixe o PDF clicando no ícone abaixo.

Grande Sertão Veredas - ROSA, Guimarães - 10 de 10
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ÚLTIMO ENCONTRO 10 de 10: 30/06/22 - 19h30 às 21h00

Na sua casa através do aplicativo Zoom (Play Store) (Apple Store)


As inscrições devem ser feitas no link abaixo:




MATERIAL DE APOIO - ÚLTIMO ENCONTRO (30/06)


“O senhor escute meu coração, pegue no meu pulso. O senhor avista meus cabelos brancos… Viver - não é? - é muito perigoso. Porque ainda não se sabe. Porque aprender-a-viver é que é o viver, mesmo.”

Eis o final de nossa travessia. Seria de fato o final ou o convite a uma nova releitura?

"Rompemos para o Paredão", em direção ao que todos já sabem mas ninguém quer de fato saber, o final trágico da epopéia roseana.

Há algo de enigmático na travessia do sertão que se confirma ao concluir a história, Riobaldo não consegue apreender na totalidade quem se tornou depois da perda de seu grande amor. Chegamos finalmente ao fim que se entrelaça ao início do livro, como o desenho do símbolo do infinito, algo que não tem começo e nem fim.


Contrastando com tantas mudanças contemporâneas, o sertão é lugar de costumes que atravessam os tempos. Isso que se caracteriza por uma distância no tempo e no espaço poderia ser também uma analogia do psiquismo, do inconsciente? De um interior que se localiza ou que existe dentro de nós? O que não se tem controle e que nos governa. "- Nonada. O sertão está em toda parte."

Com esse sentimento de estranheza como o vento que muda de direção no batalha final entre Hermógenes e Diadorim que o leitor finaliza a leitura.


“Eu atravesso as coisas - e no meio da travessia não vejo! só estava era entretido na ideia dos lugares de saída e de chegada. Assaz o senhor sabe: a gente quer passar um rio a nado, e passa; mas vai dar na outra banda é num ponto muito mais embaixo, bem diverso do que em primeiro se pensou: viver não é muito perigoso? ” (ROSA, p. 32)


Para que lugar a leitura dessa obra nos transporta? Qual foi o sentimento despertado pelo grupo da ciranda ao se deparar com a tragédia final?

Agora fica em evidência que o início é o fim do livro, daí a dificuldade em estruturar uma sequência lógica. Tal fato é revelado apenas nesse momento, ao fim da leitura, o que talvez desperte o desejo circular de releitura, em busca de encadeamentos futuros.

O diabo, para Riobaldo, era o “homem aos avessos”, e ele se questiona se o demo era ele mesmo. Talvez haja uma relação com o enigma da esfinge, com a pergunta sobre o que é o humano. Diante da constatação do desamparo e da fragilidade do homem, nomeia-se um sentido do viver.

Alguns estudos apontam Diadorim como sendo o duplo de Hermógenes, “masculino e feminino; anjo e diabo, referenciado diá com que se inicia Diadorim, e oposto a Deo, início do seu nome próprio, Deodorina, formando o par antitético Diabo versus Deus” (MORAIS, p.123). O pacto com o diabo que Riobaldo realiza é movido por seu desejo por Diadorim, a encruzilhada do desejo. A morte de Diadorim se efetiva na “encruzilhada com o diabo no meio do re-demo-inho”; no duelo final Diadorim e Hermógenes morrem juntos, personagens que se complementam nas representações. É apenas após a morte que Diadorim se revelará mulher, revelando mais um dos diversos enigmas da obra.

“Grande Sertão” é, na essência, uma história de amor. Riobaldo perde Diadorim e narra sua triste travessia pelo sertão. Ao mesmo tempo em que o amor é o que nos salva da loucura e do adoecimento, também é causa de sofrimento. Nunca estamos tão mal protegidos contra o sofrimento como quando amamos, nunca estamos tão irremediavelmente infelizes como quando perdemos a pessoa amada ou o seu amor. Como disse Freud, em última análise precisamos amar para não adoecer (1914). Rosa aproxima o ato de amar do estado de saúde, o que viabiliza a convivência com o outro, as frustrações e perdas. “Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura” (ROSA, p.23).

Após o falecimento de Diadorim e um longo período de restabelecimento, Riobaldo se casa com Otacília, deixa a jagunçagem e se torna fazendeiro. “De mim, pessoa, vivo para minha mulher, que tudo modo-melhor merece, e para a devoção. Bem-querer de minha mulher foi que me auxiliou, rezas dela, graças. Amor vem de amor. Digo. Em Diadorim, penso também – mas Diadorim é minha neblina...” ROSA (p. 22)

Ao lado de Otacília, ele adentra na velhice, recorda seu passado, e Diadorim se faz presente na ausência. O luto de Riobaldo parece impulsionado pela pulsão de vida, em que, após o trabalho do luto, a libido realiza novas conexões. Apesar das pulsões de vida e morte coexistirem, há no processo uma prevalência de ligações das pulsões. Sendo assim, o que possibilita a conclusão do trabalho de luto é a capacidade para o amor.

A literatura e, especificamente, a obra estética de Guimarães Rosa nos faz adentrar no efeito transformador da arte. Nesse sentido, podemos pensar que a literatura e a teoria psicanalítica caminham juntas, já que a teoria psicanalítica se atualiza na escuta afinada das narrativas dos pacientes, que nos trazem suas histórias e sonhos, assim como a obra literária atrai leitores pela narrativa das experiências humanas, os sofrimentos, as alegrias, as descobertas relatadas nos romances, nos devaneios de cada escritor que remete à condição humana, “aos crespos do homem”, citando Guimarães Rosa.

“Grande Sertão: Veredas” possibilita inúmeros estudos, análises e interpretações, sob os mais diversos ângulos. Assim, não foi pretensão esgotar as possibilidades, mas tão somente contribuir com algumas reflexões acerca da obra. A escrita circular, em que o fim é o começo do livro, se assemelha ao processo da travessia do luto de Riobaldo, que vislumbra o movimento do sujeito no processo de elaboração de perdas e abre o campo de pesquisa da metapsicologia do luto para a renovação da capacidade de amar, fazer novas conexões e travessias.

“O diabo não há! É o que eu digo, se for… Existe é homem humano. Travessia.” (ROSA, p.435).

Assim finalizamos a leitura desta grande obra, ou despertamos o desejo para novas releituras dos que estão lendo pela primeira vez. Foi um privilégio a experiência da leitura coletiva de uma obra tão impactante. Um agradecimento especial aos integrantes da ciranda de leitura que desbravaram com coragem, abrindo pastos fechados, seguindo juntos até o final dessa travessia.


Por Carla Belintani

Psicanalista e fundadora do projeto A Casa Frida



 

Playlist interativa para acompanhar as leituras:

Os participantes da playlist podem adicionar músicas relacionadas.




Calendário 2022 - Guimarães Rosa "Grande Sertão: Veredas"


 

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Apoio:

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A Casa Frida

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